sexta-feira, 10 de março de 2017
domingo, 1 de janeiro de 2017
O NOVO ANO SOB A ÓTICA DO MENINO
Foi então que busquei extrapolar o seu discurso prático e lhe ofereci algumas porções do meu discurso simbólico. Eu também precisava sobreviver àquela conversa. Não queria sair dela embebido daquela praticidade que poderia ruir minha capacidade de acreditar que existe alguma novidade à minha espera com o romper da nova década. O menino me olhava interessado. Falei sobre o tempo e seus ciclos. Falei da psicologia das horas.
Argumentei que a demarcação das datas pode ter repercussão nas almas das pessoas. A oportunidade de virar o calendário pode ter efeito positivo sobre aquele que se sente pesado, angustiado, sem esperanças. Comparei o ano velho a uma gaveta que precisa ser limpa. Guardamos muitas coisas desnecessárias. Chega o momento em que precisamos fazer a triagem. É necessário limpar, jogar fora, abrir espaços para coisas novas. Ano novo e gaveta limpa podem ter os mesmos sentidos, sugeri. Toda vez que nós temos a sensação de um novo tempo, é natural que nossas almas sejam invadidas por esperanças. Faz parte do processo humano sofrer de esperanças.
A esperança é uma espécie de instinto de sobrevivência. O cansaço dos tempos idos pode dispor o nosso coração à possibilidade de mudanças. É como se houvesse uma saturação. Não queremos mais o peso do passado. Precisamos de outra oportunidade. O calendário novo nos oferece essa sensação. Ao saber que o ano velho está sendo finalizado, é possível que você se encha de expectativas importantes.
O menino me olhou com carinho e agradeceu. Voltou para o seu mundo de brinquedos e deixou-me diante da necessidade de conciliar os dois discursos. O prático e o simbólico. Desaforo. O discurso prático parece humilhar o discurso simbólico. Ele resolve porque é dotado de clareza. É lógico, curto, asfixiante. E foi assim que recebi o ano novo.
Tentando equilibrar os dois discursos dentro de mim. Vez em quando eu me recordo da ótica do menino. Eu não a desconsidero. Ele tem razão. Se a gente não se empenhar na construção de um novo tempo, nada acontecerá. O ano novo será mesmice, repetição de erros, acomodação de posturas, condução medíocre de oportunidades, explosão de fogos que oferece brilho breve, assustadoramente fugaz. Mas não precisa ser assim. Há sempre um motivo novo abscôndito nas velhas estruturas da condição humana. A isso chamamos de evolução, superação. O menino me ajudou com sua ótica. Perdi o medo de ser prático na minha reflexão sobre o tempo.
De fato, nada mudou. Mas também não posso deixar de admitir que há um vento suave me conduzindo para o coração do futuro. E assim eu vou. Abraçando o presente, passando o passado, aprendendo com essa dinâmica interessante, inventada por alguém que não sei dizer, que faz o ano velho ser novo de novo.
Padre Fábio de Melo
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016
AMIGO: SOMOS MUITOS, MESMO SENDO DOIS!
Eu queria ser poeta, conhecer o ofício de recolher palavras. Realizar a proeza de desvendar silêncios e descobrir o que o outro fala mesmo quando ele não diz...
Eu queria ser amigo dos versos, possuir asas que à inspiração pertencem. E alcançar a palavra que possa ser a tradução do amor que sinto por você...
Mas de poeta eu só possuo os óculos. Óculos são instrumentos que ampliam a visão. O amor também. E já que não sou poeta o amor é o que me resta...
Desde quando a vida me permitiu conhecer você, tenho experimentado a beleza do significado da amizade...
Quando nossos caminhos se encontraram foi a primeira vista. Depois daquele encontro meu mundo ficou mais bonito...
Sua presença quando os dias eram difíceis. Quando pensei que felicidade era coisa do outro mundo, sua palavra me convenceu que eu deveria continuar...
Suas alegrias, despertando minhas alegrias; suas risadas me fazendo rir também...
Nossas madrugadas de conversas. Vida dividida nas pequenas coisas...
Costura do tempo nos aproximando sempre mais...
Mas quando surgiram nossas diferenças, quando descobrimos nossos maiores defeitos...
Discussões desaforadas. A promessa de que eu iria embora definitivamente de sua vida e de que nunca mais voltaria a pronunciar seu nome...
Mas depois a saudade, a ausência mensurada, o arrependimento, o pedido de perdão e o aprendizado de que quanto mais a gente ama, muito mais a gente precisa perdoar. E o perdão é a continuidade do amor. Obrigado por ter me ajudado a entender isso...
Estar ao seu lado é sempre motivo de festa. Quando estamos juntos a vida ganha significado diferente. Retiramos o dia comum do calendário e o transformamos em feriado. Extraímos felicidades das coisas mais simples e multiplicamos a graça de cada instante...
Eu não sei dizer quem eu sou sem me recordar de você... Se da minha vida eu sou o sujeito, você é o adjetivo...
Você me empresta qualidade, você me devolve quando sou roubado. Você me encontra quando estou perdido...
Pode ser que um dia a gente venha se perder nas distâncias deste mundo. Pode ser que um dia a gente se separe. Nem sempre a vida respeita o que a gente quer...
Mas uma coisa é certa: Se pela força da distância você se ausentar, pelo poder que há na saudade há de voltar...
Mesmo que o tempo passe, você fique velhinho e viva aquela fase: põe meu amigo no sol, tira meu amigo do sol....
Mesmo que você perca toda sua utilidade. Dentro de mim você continuará tendo significado...
E haverá sempre um lugar reservado dentro da minha casa para você chegar, quando quiser...
Eu não gostaria que a morte nos alcançasse sem antes poder lhe dizer, que nas miudezas dos meus dias que passam, você é um grande acontecimento que permanece....
Amar é um recurso humano que nos faz eternos...
Retira da mira do tempo e aconchega a pessoa amada na certeza: você não vai passar! Hoje, neste dia que a vida nos permitiu um encontro nestas páginas, neste instante em que seus olhos se ocupam das palavras que meu coração resolveu improvisar...
Eu gostaria de lhe agradecer pelas inúmeras vezes que você me enxergou melhor do que sou...
Pela sua capacidade de me olhar devagar, já que nesta vida muita gente já me olhou depressa demais...
Eu que nem sempre soube acertar. Aprendi com você que arrependimento é bem melhor do que culpa...
Obrigado por você não ter desistido de mim...
Obrigado pelo seu dom de multiplicar o que sou e o que posso...
Eu, que na solidão dos meus dias sou tentado a pensar pequeno...
Quando o encontro, sou sempre surpreendido com seu poder de me fazer ver o mundo com as mesmas lentes dos poetas...
Obrigado, hoje e sempre!
O que nos torna amigos é a capacidade de sermos muitos, mesmo quando somos dois!
Padre Fábio de Melo
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